O início que conquistou o mundo
Quando Nanatsu no Taizai (The Seven Deadly Sins) estreou em 2014, ninguém imaginava o tamanho do fenômeno que estava nascendo.
O mangá de Nakaba Suzuki já vendia milhões de cópias no Japão. Quando a adaptação chegou às telas, trouxe consigo um mundo de fantasia medieval extremamente rico — a Britânia, inspirada nas lendas arturianas, povoada por clãs de demônios, deuses, gigantes e fadas.
Tudo isso embalado num pacote de ação shounen empolgante e cheio de carisma.
O anime ganhou força ainda maior quando chegou à Netflix no Brasil, sob o título Os Sete Pecados Capitais. Foi ali que uma legião de fãs brasileiros se apaixonou pela jornada de Meliodas, Elizabeth e o restante do grupo de cavaleiros sagrados acusados injustamente de tentar derrubar o reino de Liones.

A primeira temporada entregou exatamente o que prometia: personagens carismáticos, reviravoltas interessantes, humor que funcionava na maior parte do tempo, e batalhas com peso real.
Foi o suficiente para conquistar um público fiel e fazer o nome da obra circular entre os fãs de shounen do mundo inteiro.
Só que o que começou como um sucesso retumbante se transformou, ao longo das temporadas seguintes, em um dos casos mais discutidos de queda de qualidade dentro do universo dos animes — e é exatamente esse processo que vamos analisar aqui.
A virada: terceira temporada e a polêmica da animação
O primeiro grande sinal de alerta veio com a terceira temporada, intitulada Wrath of the Gods.
A produção passou para as mãos do estúdio Studio Deen, que historicamente não tinha tanta experiência com animes shounen de ação em larga escala. Boa parte do trabalho de animação precisou ser terceirizada para cumprir os prazos de exibição.
O resultado foi, segundo a maioria dos fãs, desastroso.
Diversas cenas apresentaram uma qualidade de animação muito abaixo do esperado para uma produção desse porte — chegando a ser comparadas a um dos momentos mais infames da história dos animes shounen: a tão criticada cena de Naruto contra Pain.
Em um episódio específico, durante o combate extremamente aguardado entre Meliodas e Escanor, um vídeo compartilhado nas redes sociais mostrando os problemas técnicos acumulou mais de 600 mil visualizações em poucos dias, com fãs visivelmente revoltados nos comentários.
E não parou só na animação. Essa mesma temporada também tentou censurar o sangue característico da obra, trocando a cor de vermelho para um tom branco genérico nos primeiros episódios.
Foi uma decisão que gerou tamanha revolta entre o público que precisou ser revertida nos episódios seguintes, retornando à cor original.
O fanservice que cansou os fãs
Outro ponto que ficou cada vez mais difícil de ignorar, conforme as temporadas avançavam, foi o uso excessivo e repetitivo de fanservice — especialmente nas interações entre Meliodas e Elizabeth.
O que para uma parte do público ainda era tolerável nas primeiras temporadas começou a parecer cansativo e, para muitos fãs, genuinamente desconfortável.
O incômodo aumenta quando se considera o contexto: Elizabeth, apesar de ser uma deusa milenar com mais de três mil anos de existência, passa a maior parte da narrativa apresentando-se e sendo tratada como uma garota de dezesseis anos, sem memória alguma de seu passado ou de sua verdadeira natureza.
Esse tipo de humor, que inicialmente parecia fazer parte do "tom" despretensioso do anime, foi se tornando, com o tempo, um dos principais alvos de crítica conforme a série se desenrolava.
Personagens que perderam relevância
Um problema recorrente nas temporadas finais foi o desequilíbrio crescente de poder entre os personagens.
Vilões e ameaças que pareciam intransponíveis nas primeiras fases da história simplesmente deixaram de representar qualquer perigo real conforme os protagonistas evoluíam em ritmo acelerado.
O resultado foi um esvaziamento progressivo da tensão nas batalhas. Sem ameaça real, mesmo os combates mais aguardados perdiam grande parte do impacto emocional que conquistaram o público no início.
O ritmo geral da narrativa também sofreu bastante com isso. A crítica especializada e os próprios fãs apontaram que, a partir da metade final da obra, a produção trocou a construção cuidadosa de personagens e a tensão narrativa por uma sequência apressada de acontecimentos, flashbacks explicativos e lutas sem peso dramático real.
Uma combinação que afastou parte considerável do público que havia se apaixonado pela primeira fase da história.
Por que isso aconteceu?
Alguns fatores ajudam a explicar essa queda perceptível de qualidade ao longo da franquia:
- Trocas constantes de estúdio durante a produção, cada um trazendo sua própria visão visual, orçamento e nível de qualidade técnica
- Pressão de cronograma de exibição, levando à terceirização de partes inteiras da animação para cumprir prazos apertados
- Inflação de poder descontrolada, tornando vilões anteriormente ameaçadores completamente irrelevantes nas fases finais
- Dependência excessiva do fanservice como recurso narrativo recorrente, em vez de investir em aprofundamento de trama e personagens
O legado de Nanatsu no Taizai
Apesar de tudo isso, é justo reconhecer que Nanatsu no Taizai teve um papel real e importante na popularização de animes de fantasia medieval no ocidente.
A obra ajudou a abrir espaço para que produções do gênero conquistassem mais visibilidade em plataformas de streaming como a Netflix, pavimentando caminho para outras séries semelhantes.
Mas o que ficou marcado na memória de quem acompanhou a obra do início ao fim foi a sensação amarga de assistir a um potencial gigantesco sendo gradualmente desperdiçado ao longo do caminho.
A primeira temporada continua sendo lembrada com carinho genuíno por muitos fãs. Já as últimas, infelizmente, carregam o peso permanente das polêmicas técnicas e dos deslizes narrativos.
Vale a pena assistir hoje?
Se você nunca assistiu, vale a pena conhecer pelo menos a primeira temporada — ela ainda entrega uma introdução sólida ao universo, aos personagens centrais e à proposta original da obra.
Só vá com a expectativa devidamente ajustada: a experiência tende a ir caindo de qualidade conforme a história avança, e isso é algo amplamente reconhecido até pelos fãs mais fiéis e antigos da franquia.
Nanatsu no Taizai se tornou, com o tempo, um exemplo quase didático de como um anime pode começar com tudo — conquistando crítica e público — e ir perdendo força ao longo do caminho. Uma lição valiosa que muitas outras produções do gênero shounen ainda precisam levar em consideração.
Post criado por Juvent, com colaboração de Arabella.

